O gênero de terror e suspense vive um momento de efervescência, oscilando entre a dramatização de tragédias reais brasileiras e o renascimento de franquias internacionais controversas. No cenário do streaming nacional, o destaque vai para a produção “Maníaco do Parque”, que chegou ao catálogo do Amazon Prime Video em 18 de outubro de 2024. O longa-metragem aposta no terror psicológico para revisitar um dos capítulos mais sombrios da crônica policial de São Paulo.
Dirigida por Maurício Eça, cineasta que já demonstrou habilidade em conduzir narrativas de “true crime” com a trilogia sobre o caso Richthofen (A Menina que Matou os Pais), a obra conta com roteiro de L.G. Bayão. A trama mergulha na década de 1990 para retratar os crimes do motoboy Francisco de Assis Pereira. Na época, ele levava uma vida dupla: apresentava-se como um cidadão comum e querido pela vizinhança, enquanto escondia a faceta de um predador que atacou 23 mulheres e assassinou dez delas na capital paulista.
A narrativa sob a ótica da investigação
Diferente de documentários puramente factuais, o filme introduz uma perspectiva ficcional através da personagem Elena, vivida por Giovanna Grigio. Ela interpreta uma repórter em início de carreira que acaba imersa na cobertura dos crimes. A narrativa ganha tração conforme novos corpos são descobertos, transformando a busca pela identidade do assassino em uma obsessão pessoal para a jornalista. Silvero Pereira assume o complexo papel do protagonista criminoso, uma peça fundamental para sustentar a tensão que o filme propõe.
A produção busca recriar a atmosfera de medo que paralisou São Paulo naquela época, entregando um suspense denso. O lançamento se posiciona como uma das principais apostas do Prime Video para o período, dividindo a atenção do público com títulos de peso como o romance Rivais, estrelado por Zendaya, e a série Citadel: Diana. Mais do que entretenimento, a abordagem realista visa provocar uma reflexão sobre a violência urbana e suas cicatrizes na sociedade.
A ressurreição de um trauma geracional
Enquanto o cinema brasileiro revisita seus monstros reais, Hollywood prepara o terreno para desenterrar um pesadelo que marcou a infância e adolescência de muitos nos anos 80. A infame franquia “Faces da Morte” (Faces of Death) tem seu retorno confirmado para 2026, prometendo trazer de volta o choque visual que a tornou uma lenda urbana nas locadoras.
Não é preciso ter assistido a Stranger Things para entender que aquela década foi um período peculiarmente assustador, marcado pelo “Pânico Satânico”, lendas sobre doces envenenados no Halloween e o clima político tenso da era Reagan e Thatcher. Porém, poucas coisas geravam tanto pavor nos recreios das escolas quanto os rumores sobre um filme que supostamente mostrava pessoas morrendo de verdade.
O primeiro teaser dessa nova versão, prevista para 2026, apela diretamente para esses medos primais. Sem uma narrativa linear clara, a prévia bombardeia o espectador com imagens aleatórias e brutais: um urso arrastando um homem inerte, um caminhão atropelando um pedestre e um martelo atingindo um crânio. Em meio a gemidos de dor e pedidos de socorro, uma voz narra reflexões mórbidas sobre o fim da vida, questionando se estamos vendo “o fim do começo ou o começo do fim”.
O legado do horror “Mondo”
Para compreender o impacto desse retorno, é preciso olhar para o original de 1978. Escrito e dirigido por John Alan Schwartz, o filme era apresentado pelo fictício Dr. Francis B. Gröss (interpretado por Michael Carr). Embora vendido como um compilado de cenas reais, Faces da Morte era, em sua grande maioria, uma obra de ficção bem elaborada. O “médico” apresentava sua coleção de filmagens — que iam de acidentes de carro a execuções e cenas do Holocausto — acompanhadas de uma narração vagamente filosófica sobre a natureza humana.
A franquia se insere no subgênero de horror conhecido como “Mondo” (termo derivado do italiano para “mundo”), que consiste em documentários de exploração sensacionalista. Enquanto documentários de viagem convencionais mostravam saunas escandinavas ou a cultura japonesa, os filmes Mondo prometiam revelar o lado sujo e tabu de subculturas ao redor do globo.
O progenitor desse estilo, Mondo Cane (1962), levava o público a uma volta ao mundo bizarra, exibindo desde o abate de animais até rituais estranhos. O segredo do sucesso — e da controvérsia — desse gênero sempre foi a justaposição: por mais grotesco que fosse o material, um narrador autoritário e calmo descrevia tudo como se fosse um estudo antropológico sério, permitindo que o espectador justificasse sua curiosidade mórbida como uma busca intelectual. Resta saber se a versão de 2026 conseguirá replicar esse impacto em uma era onde a violência real já é amplamente disseminada nas redes sociais.