O universo cinematográfico vive um momento peculiar de dualidade, onde a celebração de sua rica história colide com a necessidade urgente de revitalizar as salas de exibição no presente. Recentemente, a prestigiada revista Variety atualizou sua lista definitiva com os 100 melhores filmes de todos os tempos, reafirmando a importância de obras que moldaram a linguagem visual. No entanto, enquanto críticos e cinéfilos revisitam o passado, a indústria volta seus olhos para os números deste fim de semana, esperando que novas produções tirem as bilheterias da calmaria deixada pelas recentes tempestades de inverno nos Estados Unidos.
A História Revisitada
A curadoria da Variety trouxe uma seleção que atravessa décadas e gêneros, coroando o suspense magistral de “Psicose” (1960), de Alfred Hitchcock, como o maior filme da história. O pódio é completado pela fantasia atemporal de “O Mágico de Oz” (1939) e pelo drama criminal “O Poderoso Chefão” (1972), evidenciando um respeito profundo pelos pilares da narrativa clássica. A lista não se limita ao passado distante, reconhecendo a força do cinema contemporâneo e global ao incluir o sul-coreano “Parasita” (2019) entre lendas como “Cidadão Kane” (1941) e “Pulp Fiction” (1994).
É notável a diversidade de estilos, que vai da ficção científica filosófica de “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (1968) ao realismo cru do cinema brasileiro, representado por “Pixote, a Lei do Mais Fraco” (1980). Títulos que marcaram gerações, como “Titanic” (1997), “O Senhor dos Anéis” (representado indiretamente pelo impacto de franquias, embora a lista priorize filmes individuais) e “Batman: O Cavaleiro das Trevas” (2008), confirmam que o apelo popular e a excelência técnica podem caminhar juntos. Essa compilação serve como um lembrete do potencial artístico do cinema, algo que os estúdios tentam desesperadamente replicar nas estreias da semana.
Terror e Sobrevivência nas Bilheterias
Saindo do panteão dos clássicos para a realidade do mercado, a grande esperança para reaquecer os cinemas é o thriller de sobrevivência “Send Help”, dirigido por Sam Raimi. Conhecido por criar a franquia “Evil Dead” e comandar a trilogia original do Homem-Aranha, Raimi retorna às suas raízes no terror com uma produção orçada em 40 milhões de dólares. A Disney e a 20th Century projetam que o filme, protagonizado por Rachel McAdams e Dylan O’Brien, alcance a liderança das bilheterias com uma arrecadação estimada entre 14 e 17 milhões de dólares em sua estreia doméstica.
A trama gira em torno de uma funcionária negligenciada e seu chefe tóxico, que acabam presos em uma ilha após um acidente aéreo. A crítica especializada, incluindo Peter Debruge da Variety, destacou a imprevisibilidade do roteiro como um ponto forte, o que pode gerar um boca a boca positivo e garantir longevidade ao filme nas semanas seguintes. Além do mercado interno, espera-se que a produção arrecade entre 10 e 12 milhões de dólares internacionalmente, números que seriam um alívio para o setor neste início de ano.
Documentários, Política e Controvérsia
Enquanto “Send Help” lidera as projeções, o cenário competitivo traz outras narrativas intrigantes. O thriller de ficção científica “Iron Lung” deve garantir o segundo lugar com cerca de 10 milhões de dólares, seguido pela ação de “Shelter”, estrelado por Jason Statham. Contudo, as atenções mais curiosas da indústria estão voltadas para “Melania”, um documentário sobre a ex-Primeira-Dama dos Estados Unidos, que chega aos cinemas cercado de cifras astronômicas e tensão política.
A Amazon MGM realizou um investimento massivo no projeto, pagando 40 milhões de dólares pelos direitos de distribuição e supostamente investindo outros 35 milhões em marketing — valores sem precedentes para um documentário que não seja sobre concertos musicais. Apesar do alto custo, as projeções de abertura são modestas, situando-se entre 3 e 5 milhões de dólares. O filme, dirigido por Brett Ratner em seu primeiro trabalho após o afastamento da indústria em 2017 devido a denúncias de assédio, foca nos dias que antecederam a segunda posse de Donald Trump.
O lançamento ocorre em um contexto de agitação social, com protestos e reações políticas a operações do governo em diversas cidades americanas. A estreia de gala em Washington promete reunir figuras políticas de peso e o próprio casal Trump, que tem promovido o filme intensamente nas redes sociais. Resta saber se o interesse midiático em torno de “Melania” e o retorno de Sam Raimi serão suficientes para transformar a curiosidade do público em ingressos vendidos, mantendo a roda da indústria girando enquanto novos clássicos tentam nascer.