Round 6 voltou com os dois pés na porta. A série sul-coreana, que dispensa apresentações e segue reinando absoluta no topo da Netflix, finalmente soltou sua segunda temporada no último dia 26, liberando os sete episódios de uma vez. O clima de suspense sufocante continua lá, mas agora o buraco é bem mais embaixo. Gi-hun (Lee Jung-jae), o vencedor traumatizado da carnificina original, tem uma meta clara em mente: destruir o sistema que arruinou a sua vida. Só que a parada envolve ameaças inéditas e jogos que beiram a insanidade. E se você acha que essa vingança se resolve agora, pode tirar o cavalinho da chuva, pois o streaming já mandou avisar que a terceira e última parte desse fenômeno desembarca apenas em 2025.
Vamos falar daquele desfecho que deixou todo mundo com o estômago embrulhado. O último episódio, sintomaticamente batizado de “Amigos ou Inimigos?” (2×07), termina com uma cena brutal. Jung-bae, parceiro de longa data do protagonista, é fuzilado pelo Front Man (Lee Byung-hun) bem na cara de Gi-hun. Uma punição cruel e cirúrgica pelo motim que ele tentou encabeçar contra a cúpula dos jogos. O grupo até chegou a sentir o cheiro da sala de controle, mas o plano desmoronou graças a uma rasteira do próprio Front Man, que passou a temporada inteira infiltrado como um jogador comum — uma das maiores sacadas logo de cara.
A semente dessa rebelião foi plantada logo após a terceira rodada, quando restavam exatos cem competidores. Rolou um empate tenso na votação para decidir se a galera continuava na ilha ou dividia a grana e dava o fora. Com a decisão empurrada para a manhã seguinte, o caos tomou conta e resultou num banho de sangue no banheiro masculino. Sabendo que os defensores da permanência caçariam os opositores na surdina da noite, Gi-hun e seus aliados resolveram meter o louco: fingiram-se de mortos para emboscar os guardas de macacão rosa e roubar o armamento. Parecia um movimento de mestre, mas a sabotagem interna cobrou o seu preço.
O criador da série, Hwang Dong-hyuk, bateu um papo com a revista Variety e destrinchou o motivo de ter trucidado Jung-bae de um jeito tão visceral. O diretor explicou que, no meio do processo de escrita, percebeu que precisaria de mais tempo para amarrar a trama, decidindo então fatiar a história em duas temporadas. Ele argumenta que a jornada de Gi-hun precisava de um marco pesado. Todas as tentativas do protagonista de peitar a organização deram com os burros n’água: tentar plantar um rastreador com os mercenários não rolou, persuadir a galera pelo voto foi inútil e o motim armado acabou em tragédia. Dong-hyuk queria que essa sucessão de fracassos afundasse Gi-hun em uma crise intensa, culminando na perda de seu melhor amigo. O gancho para o terceiro ano é justamente esse choque de realidade: como ele vai conseguir seguir em frente com a sua missão carregando esse caminhão de culpa e sensação de impotência nas costas?
Enquanto a dramaturgia sul-coreana nos esmaga com luto e lógicas opressoras para falar sobre justiça, o cinema internacional resolveu abordar o assassinato e a investigação de um jeito completamente reverso — mas nem por isso menos intrigante. Se em Round 6 Gi-hun carrega o peso do mundo tentando bancar o detetive e o salvador contra um sistema bilionário, nas telonas a responsabilidade de bancar o Sherlock Holmes acabou caindo no colo de um rebanho de ovelhas.
O filme “Glennkill – Ein Schafskrimi”, que chega aos cinemas em 14 de maio, é a prova viva de que o gênero investigativo aguenta as premissas mais surreais. Baseado no best-seller da autora alemã Leonie Swann lançado em 2005, o longa mistura o astro de ação Hugh Jackman, um elenco afiado na comédia e um monte de lã numa história que abraça o absurdo. Na trama, Jackman dá vida a George Hardy, um sujeito introspectivo que vive isolado num trailer nos arredores da pacata vila irlandesa de Denbrook. A sua única e verdadeira companhia é o próprio rebanho. O detalhe excêntrico dessa relação é que o pastor tem o hábito de ler livros de mistério para os animais toda noite. O que ele sequer imaginava é que as ovelhas não só compreendem cada palavra, como adoram quebrar a cabeça para solucionar os crimes da ficção.
A calmaria pastoral vai para o espaço quando o pastor é encontrado morto. O policial local, Tim Derry (Nicholas Braun), tenta empurrar a tragédia com a barriga e classificá-la como um acidente qualquer. A sorte é que um repórter xereta interpretado por Nicholas Galitzine bota a boca no trombone, garantindo que o caso seja tratado como homicídio. O problema para a investigação humana é que absolutamente todos os nomes citados no testamento de Hardy teriam motivos de sobra para apagá-lo. Descrentes da capacidade das autoridades de resolver o problema do seu amado dono, as próprias ovelhas assumem a bronca.
A liderança dessa patrulha de quatro patas fica com Lily e Mopple. E aqui entra o charme da produção: enquanto no idioma original temos gigantes como Julia Louis-Dreyfus e Chris O’Dowd emprestando a voz, a adaptação alemã brilha trazendo lendas da comédia local como Anke Engelke e Bastian Pastewka, dando um carisma ímpar para esses bichos. Em meio a muito pasto e deduções no melhor estilo Miss Marple, essas ovelhas curiosas entregam muito mais do que um filme cabeça e divertido. A investigação acaba se tornando um plano de fundo muito sensível para o rebanho assimilar tópicos complexos como o luto por seu criador, a força da amizade e o amor — provando que, no fim das contas, a dor de uma perda repentina e a vontade de encontrar a verdade conectam desde o mais quebrado dos sobreviventes em uma ilha coreana até uma ovelha pensativa nos campos da Irlanda.