A onipresença das redes sociais e a facilidade com que nossas vidas são monitoradas pelas telas formam o fio condutor de duas produções intrigantes do catálogo da Netflix. Seja expondo a futilidade tóxica e o consumismo desenfreado da elite da internet, seja mergulhando nos rastros digitais de um serial killer implacável, a plataforma constrói narrativas que nos fazem questionar o verdadeiro preço da hiperconexão. De um lado, o sucesso sul-coreano “Celebrity” disseca a obsessão por fama. Do outro, o recém-anunciado thriller nórdico “O Homem das Castanhas: Esconde-Esconde” transforma a tecnologia do dia a dia em uma ferramenta de puro terror psicológico.
A ascensão e queda no mundo das celebridades virtuais
Logo nos primeiros minutos de “Celebrity”, o espectador é confrontado com o poder quase assustador de uma simples postagem no Instagram. Fica evidente como um usuário com milhões de seguidores e alto engajamento tem nas mãos a capacidade de distorcer ou ditar a realidade. A trama acompanha Seo A-ri, vivida por Park Gyu-yong, uma jovem que vende cosméticos para ajudar no sustento de casa após a falência de sua família e a morte do pai. O rumo de sua vida pacata muda quando ela esbarra em um shopping com Oh Min-Hye (Jeon Hyosung), uma antiga colega de escola que hoje ostenta uma rotina de luxo na internet.
Acreditando que A-ri ainda pertence à alta classe, a ruiva a convida para uma festa exclusiva. Para manter as aparências, a vendedora aceita o convite e acaba se envolvendo em uma grande confusão para proteger a antiga amiga. Esse episódio inusitado atrai todos os holofotes, garantindo à protagonista milhares de seguidores do dia para a noite. Imersa nesse novo universo, A-ri compreende aos poucos a engrenagem da fama virtual. Ela descobre que as personalidades da internet moldam seus corpos, estilo e até a forma de falar apenas para satisfazer legiões de fãs.
Mais do que uma mudança estética, essas celebridades integram uma comunidade disposta a tudo para aniquilar seus inimigos online e alcançar o que desejam, escondendo falhas de caráter e rotinas que chegam a normalizar o uso de drogas pela elite. Desconfortável com esse ciclo de falsidade, a protagonista decide se afastar. A grande reviravolta acontece quando, após ser dada como morta e levar consigo os segredos obscuros do grupo, A-ri reaparece misteriosamente em uma transmissão ao vivo. Em meio a perfis de ódio e ameaças reais, ela promete expor as falhas de cada um dos influenciadores, provando que seus ídolos são tão cheios de defeitos quanto o público que os venera. O elenco desse dorama instigante traz ainda nomes como Kang Min-hyuk, Lee Chung-a, Song Yuqi e Lee Dong-gun.
O rastro digital como ferramenta de caça
Enquanto a produção sul-coreana explora as armadilhas da exposição voluntária, a nova aposta da plataforma leva a constante vigilância para um território bem mais macabro. A Netflix acaba de liberar as primeiras imagens e o teaser de “O Homem das Castanhas: Esconde-Esconde”, a aguardada continuação da aclamada série de suspense. Com estreia global confirmada para 7 de maio de 2026, a minissérie de seis episódios produzida pela SAM Productions marca o retorno da dupla de detetives Mark Hess (Mikkel Boe Følsgaard) e Naia Thulin (Danica Curcic).
Desta vez, a investigação começa com o desaparecimento de uma mulher de 41 anos. Ao mergulhar no rastro digital deixado pela vítima, a polícia percebe que ela vinha sendo espionada de perto há meses. Um criminoso anônimo subverteu a inocência de um jogo de esconde-esconde em uma perseguição doentia, monitorando os passos da mulher enquanto enviava vídeos, fotos e uma sinistra cantiga infantil de contar. Quando o corpo finalmente é encontrado, os detetives descobrem uma ligação direta com o assassinato não resolvido de uma estudante morta dois anos antes.
O mistério central gira em torno da conexão entre essas duas vítimas tão diferentes. Dorte W. Høgh e Emilie Lebech Kaae, roteiristas e criadores da série, contam que a obra é levemente baseada no popular romance de Søren Sveistrup. Eles explicam que a nova trama aborda o colapso familiar, o luto e a sensação de absoluta impotência que domina a sociedade moderna, vivendo em um mundo onde nossos próprios celulares garantem que nunca possamos nos esconder de verdade.
Para o diretor conceitual Milad Alami, o verdadeiro trunfo do gênero Nordic Noir reside na imprevisibilidade do roteiro aliada à construção de personagens densos. A grande força motriz desta nova temporada é colocar os investigadores em uma posição vulnerável, mostrando que eles não estão apenas atrás de um assassino em série, mas também lidam com riscos pessoais e emocionais profundos ao longo da caçada. Resta agora ao público descobrir quando esse predador invisível decidirá brincar de esconde-esconde mais uma vez.